Eu não queria que este blog virasse um diário. Mas creio eu que meu tempo passa cada vez mais rápido. Apesar de minha memória afiada, eu não posso confiar no tempo para apagar, ou mesmo mudar o foco de minhas lembranças. É por isso que escrevo com tantos detalhes possíveis: eu não quero deixar absolutamente nada para trás. Eu quero voltar neste endereço idiota mais tarde e dizer a ela: “Está vendo? Isto tudo é sobre você. Isto tudo é sobre nós. Eu sempre soube que daria certo”.
O Shopping estava cheio como de costume. Minha ansiedade se misturou com a multidão. Eu caminhava de passos lentos até perceber Lia abrindo passagem entre as pessoas para vir em minha direção. Trajava um vestido que caia um pouco acima do joelho, o pano preto como as roupas que nós, este tipo revolucionário por exclusão, costumamos usar. Em sua homenagem eu vestia uma camisa Polo preta, mas desta vez sem listras, pois como ela, queria sentir-me “berçário das estrelas”.
Ela calçava uma sandália cujas tiras estavam trançadas e amarradas no tornozelo, o que chamava ainda mais atenção para suas pernas grossas e bem torneadas. Seu cabelo estava solto; um arco de falsas pedras transparentes cortadas em retângulo o enfeitava.
Havia me programado para tentar adivinhar que tipo de personalidade estava aflorada naquele dia. Pelo caminhar forte e decidido, pela voluptuosidade dos movimentos e pela olhar concentrado, poderia dizer que seria Juliana, mas depois de ter visto o sorriso doce que brotou de seus lábios e o jeito infantil com que acenou de longe quando me avistou, apostaria em Amélia. De qualquer forma, a emoção que me tomou o peito no momento em que a vi (depois de tanto tempo querendo enganar a distância com uma máquina) foi tão grande que deixei de lado minha análises prévias. As palavras não foram necessárias no primeiro contato. Ela me envolveu fortemente e ficamos abraçados por um longo tempo. Antes que pudesse dar por mim, pegou em minha mão e ordenou:
- Vem por aqui.
Íamos contra o fluxo daquela passarela, mas ela a atravessava sem nenhuma dificuldade. Quando chegamos até o elevador, meus ouvidos se acalmaram, aliviados pela redução do barulho. Encarei seus olhos e disse sorrindo:
- Pensei que nunca mais fosse ver você.
- Isto seria impossível, Vincent. – Respondeu retribuindo o sorriso. Este momento durou pouco, pois quando chegamos ao térreo, me disse às pressas:
- Finja que não me conhece.
Bastou isso para que eu entendesse o recado. Já conhecia as artimanhas da Lia, igualmente suas escapulidas da “redoma de vidro” da qual estava habituada. Um senhor alto, gordo, grisalho, de olhos azuis, marcado pela ação do tempo se dirigiu a ela perguntando:
- Ué, Lia, cadê sua amiga?
Dei alguns passos de distancia, fingindo olhar algo no meu celular, de forma a observá-la de frente, enquanto o senhor estava de costas. Liguei para seu número, sem ousar levar meu telefone ao ouvido. Ela respondeu a chamada, atuando:
- Lívia! Onde você está? Estava te esperando! Ah, você já tá aí fora? Espera que eu to indo pra’í. – E, dirigindo-se ao senhor – Ela tá me esperando lá fora.
- Ah, tá. – Respondeu ele amigavelmente – 9h na porta da shopping, hein? Senão sua mãe me mata!
- Pode deixar! – Sorrindo ela foi caminhando em direção a saída. Esperei o senhor entrar no elevador para que pudesse seguí-la.
- Desculpe. – Disse sorrindo timidamente.
- Tudo bem, Lia. Como você faz para se esconder?
- Hahaha. – Seu riso soou cúmplice – Já aprontei muito, mas como eu quase não saio, não vejo muita necessidade. Mas era geralmente algo que envolvia uma boa disposição para esconder e muita, mas muita simulação.
- Você é uma excelente atriz, já pensou em fazer teatro?
Nesta altura da conversa estávamos para atravessar um local onde passavam carros que entravam no estacionamento, quando ela foi andando distraída e eu tive que puxá-la para que não fosse atropelada.
- Calma, Lia, estamos em Minas, mas aqui não tem 3000 habitantes.
Disse brincando, mas notei que algo estava errado. Ela levou a mão na testa e parecia desabar.
- Lia, o que houve?
- Lembra quando você disse que às vezes o mundo parece cair para a direita? Então, eu me sinto assim... Às vezes pareço estar dentro de um barco e tudo simplesmente gira. – Ela sorriu. Sorriu como Ismália sorri e eu sei o que isto significava.
- Eu não sei se estamos preparados para sair andando por aí sozinhos.... Se o mundo acabar, juro que não é minha culpa.
Já era noite quando eu a levei para um lugar afastado. Pediu que fosse assim. Desde o dia em que eu tinha mostrado minha verdadeira face, desde o maldito dia em que meu ser explodira como um vulcão, ela “precisava dar-me o que eu queria”. Palavras dela. Sim, não haveria salvação se aquilo nom fosse feito. Nom haveria libertação de ambas as partes se ela nom o fizesse. E assim ela foi arquitetando um plano que eu não sabia qual.
Estávamos numa praça com muitas árvores de grande porte. Sou minucioso no que diz respeito a observações alheias, até mesmo um pouco neurótico, por isso escolhi um lugar onde ninguém poderia nos espiar. Eram três as árvores que nos cercavam, abrindo espaços consideráveis entre si, mas como o lugar estava deserto, apenas pouquíssimas pessoas (bêbados desinteressados) passavam por ali, não me importava. Mesmo pisando na ilhazinha gramada, ali, escondidos, fiz questão de estarmos. Eu não estava entendendo o que ela estava por fazer – melhor assim. Até que ela abriu sua bolsa, enfiou o arco ali dentro. Já não estava tão doce, seu olhar era vago, quase vazio. A maior surpresa foi quando tirou uma pequena faca da bolsa. Fora um trabalho árduo roubá-la da cozinha sem que sua mãe percebesse. Mais árduo escondê-la na bolsa de forma a não despertar desconfianças, revelou-me mais tarde.
- Tome. – Ela disse.
- Para que isto? – Perguntei com total desconfiança e apreensão.
Sem me responder, com um suave movimento, fez com que a alça de seu vestido caísse consideravelmente, afastou seus cabelos, deixando à mostra seu ombro esquerdo. Com a mão direita fez um sinal de meia lua na região e ordenou:
- Corte.
Pisquei, confuso.
- O que é isto, Lia? Olhei-a nos olhos. A luz de um poste próximo a iluminava. Talvez por isso ela tinha a aparência fantasmagórica, como que envolta por algo sobrenatural.
- Não era isso que queria? Vamos! Corte, beba meu sangue!
Eu a olhei incrédulo. Quem estava por trás daqueles olhos? Que movimentos hipnotizantes e perigosos eram aqueles? Juliana? Elisa? Quem que eu ainda não havia conhecido?
- Não ouviu o que eu disse? – Ela perguntou. – Corte, beba-me! – Cada palavra dita me fazia estremecer – Não te dou meu pescoço, pois hoje nom procuro a morte. Mas se é esta a maldição, sinta o controle, controlando-me.
O que ela estava pensando? Não sabia ela que estava se envolvendo com um louco? Talvez pudesse despertar em mim o mesmo sentimento animal que havia nela, sim, aquele que quase inconscientemente revelei, o motivo pelo qual estávamos ali. Será que depois de todos aqueles segredos imundos revelados ela não sentia medo? Eu tinha medo de mim quando os revelava, medo do que seria capaz de fazer a ela.
Manchetes do dia seguinte passavam pela minha cabeça: “Garota de 18 anos é assassinada; Assassino se mata em seguida” “Jovens que fazem pacto no parque são encontrados mortos no dia seguinte”; “Tia desesperada processa representante da Mercedes”.
“ A jovem Lia R. F foi encontrada morta ontem, no Parque (nome do parque). A jovem, natural da cidade (nome da cidade), visitou Juiz de Fora para passear com a família. Com a desculpa de que iria se encontrar com uma amiga, Lia se despediu da tia responsável (nome da tia) pela última vez. Ao invés de fazer o prometido, foi de encontro a um amigo que pouco conhecia pessoalmente.
‘Os dois se comunicavam escondidos pela Internet, pois a mãe dela não gostava dos modos de Vincent. A Lia sempre gostou de coisas estranhas. A mãe dela sempre foi contra esses gostos atípicos, por isso a proibia de conversar com quem tinha certas afinidades’, conta uma amiga de Lia.
Vincent é o provável assassino, um jovem de 20 anos que sofria de esquizofrenia. Ninguém sabe ao certo ao causa da morte, mas policiais acreditam ter sido um “suicídio encomendado”. Os indícios apontam para isto, pois a mesma faca que havia sumido da casa
de Lia fora usada na hora do crime. Lia, portanto, teria levado a faca por conta própria, encomendando o próprio assassinato.
‘Eles faziam parte de uma seita secreta’ Afirma um amigo em comum. ‘Eles viviam dizendo “Por Gordon” e Lia vivia repetindo coisas estranhas. Tinham um linguajar próprio e se vestiam de um modo esquisito. Com certeza Lia foi vampirizada’
‘Os jovens de hoje estão cada vez mais propensos a atos como esses, pois não tiveram uma boa estrutura familiar’ afirma a psicóloga (nome da psicóloga). ‘Com certeza esse é um caso típico de morte por exclusão’ termina.
A polícia afirma que terá os laudos reais até semana que vem, enquanto isso ambas as famílias ficam sem saber o motivo e como se sucedeu o crime”.
Até então não compreendia a destreza do seu plano. Senti meu coração bater forte, senti minha respiração ofegante, senti-me confuso. Aqueles olhos me possuíam, me queimavam. Esperava tudo dela, menos aquilo. Permaneci em silêncio, imóvel, confuso e vazio ao mesmo tempo.
- Covarde. – Disse ela, encarando-me.
Covarde. Sim, covarde. Eu estava agindo como um verdadeiro tolo. Aquela afirmação me acordou de súbito. Agarrei-a pelo braço enquanto ela me dava às costas e chamei:
- Ismália! – Ela, queimando em brasa, respondeu-me entre os dentes, fazendo sinal negativo com a cabeça:
- Juliana!
- Amélia! – Dei um passo em sua direção. Ela recuou, como eu esperava.
- Juliana! – Mais um paço, outro recuo.
- Emily!
- Emily?! – Exclamou ela, confusa.
- Uma versão americanizada para “Emília” – disse brincando. Notei confusão em seus olhos, como esperava. Uma pausa, continue: - Lia... Lia, olha... Como eu... – Senti uma onda de fraqueza que a razão combateu raivosamente. Não era hora de ser frágil, era hora de ser justo com a minha verdade, e justiça requer uma boa dose de coragem. – Eu não sei como um dia eu pude imaginar certas coisas sobre você e não, Lia, eu não vou culpar a minha loucura, nem minha condição humana e errônea. Eu entendo perfeitamente o que você quis fazer...
- É mesmo? – Ela me interrompeu - E o que eu quis fazer?
- Mostrar através da realidade, do contato físico, que não era aquilo que eu realmente queria; que aqueles pensamentos não faziam parte de mim; que aquilo tudo fazia parte de uma ordem inversa, não natural. Você queria que eu a tocasse e dissesse exatamente o que eu estou dizendo agora. - Ela sorriu. – Só que tem mais, Lia, eu agradeço a Gordon por não ter sido necessário fazer qualquer mal a você.
- Na verdade eu...
- Só um minuto. Olha, só houvesse qualquer resquício de dúvida quanto aos sentimentos bons que eu sinto por você, ela teria se dissipado no momento em que vi você sorrir, no momento em que você me tocou; tocou realmente, sem a necessidade de uma máquina ou qualquer coisa do tipo. Você não precisava ter se arriscado tanto para me libertar.
- Eu não...
- Eu não entendo de onde tirei tanta podridão; talvez por você ser como eu. Controlar você seria como controlar minha insanidade, maltratar você seria como arrancar meu próprio cérebro defeituoso. Além disso, por me sentir constantemente controlado, por ter problemas com o poder, julgava você como eu, ou inferior, portanto mais fraca. Mas eu me esquecia, Lia, que apesar de você acorrentar as pessoas como todos fazem num relacionamento (isto é inevitável), você cria correntes infinitas para que aquela pessoa se sinta livre, como está fazendo agora comigo. Ah, por favor, Lia, não me compreenda mal, agora percebo: é exatamente isto que faz com que eu me diferencie dos inúteis. Apenas pessoas como eu conseguem captar o ambiente. Não é fantástico? É isto que me proporciona viagens intergalácticas, é isto que me fortalece! E você, Lia, você representa a beleza que há em tudo!
- Vincent...
- Deixa eu só continuar: A sua intensidade me assustava, Lia e ainda me assusta, pode ter certeza, mas cada dia que passa a compreendo melhor e vejo ainda mais beleza. Mas me assustava, pois os efeitos que ela causa, são os mesmos da minha. Eu sei como isto pode ser ruim. Eu sei como é afastar, confundir as pessoas... Eu queria, de alguma forma, matar isso de nós. Quando a maltratava em meus pensamentos, estava maltratando a mesma natureza que enxergava em mim, sendo a minha ainda mais doentia... Isto não justifica tê-la usado como válvula de escape, Lia, mas eu quero que você me perdoe.
Ela fez uma expressão estranha, como quem estava prestes a desabar.
- Não... – Ela começou a balançar a cabeça negativamente. – Não você... Eu não posso... Eu não posso assustar você... Eu te assusto? Eu TE assusto? – Lágrimas como cristais começaram a escorrer. Oh, shit. Foi a primeira coisa que eu pensei. Por que eu tive que dizer aquelas palavras? Por que eu tive que dizer que ela me assustava depois de tudo que aconteceu??
- Não, não, não... Esqueça o que eu disse... Não é ISSO... Não é como ELES...
- Como não? Ela disse. – Você disse exatamente o mesmo que todos os outros dizem!
- NÃO! – Minha voz soou aguda demais, ela estremeceu. – Desculpe. Não, Lia, perceba, naquela época eu estava com medo da NOSSA natureza. É essa a diferença, Lia... Eu não sou um pintor... Eu nunca FUI um pintor, entende? Eu não temia sua intensidade por perceber o quanto ela é real, mas sim por ter a mesma natureza...
- E qual então é a diferença? Qual é a grande diferença? Ah, espera um pouco, espera um pouco... Você tem o direito de condenar o presidente apenas se fizer parte do congresso, é isso?
- Não, Lia! – Mas por dentro eu gritava: “Como sou Imbecil! Imbecil!” – Eu sei como é ser atormentado como nós somos, eu sei como é ter sonhos que parecem reais, eu sei como dói... Como REALMENTE dói...
- Você faz idéia de como está sendo difícil para mim ouvir isso tudo? Na verdade, Vincent, eu vou seguir o seu próprio conselho: eu estou cansada de entender as pessoas, estou cansada, de como você mesmo disse, acolher as pessoas seja lá qual for a terrível verdade de cada uma delas!!! Eu quero que uma vez na vida que alguém me compreenda! Eu quero que olhem para mim não admirados por verem um potencial conto-de-fadas em ação, mas sim pelo que eu sou! Pelo o que, ou quem, ou seja lá o que for, eu sou!
- E você acha que eu não faço isso? – Perguntei mais calmamente.
Eu sabia que aquela era uma pergunta surpresa. O modo de uma pergunta surpresa. Ela andou em círculos, de um lado para o outro, olhando para os próprios pés. Estava absorta nos próprios pensamentos, nos próprios questionamentos. Tinha vontade era de sacudi-la, colocá-la em meus braços, fazer com ela compreendesse... Tomá-la dos próprios pensamentos. Pelo menos naquele instante. Tínhamos tanto pouco tempo... Então ela finalmente olhou para mim, corada. Seus lábios estavam trêmulos, sua testa franzida. Doía. Eu sabia que doía. Doía em mim também, como poderia não saber?
- Desculpe. – Ela colocou a mão na testa. – Eu estou confusa. Estou muito confusa...
- Eu gostaria de poder deixar as coisas mais claras para você...
Ela sorriu.
- Você faz. Você sempre fez isso. Deixou as coisas mais claras, depois mais escuras. Você sempre aceitou. Você sempre ME aceitou...
- Você me acolheu, Lia...
- E você me acolheu de volta. Eu sinto muito por ter feito com que você se visse na própria teoria...
- Do que é que você tem medo, Lia? – Eu perguntei, interrompendo-a.
- O quê?
- Diga-me com sinceridade, do que é que você tem medo? Não é do modo que eu vejo você, não é do modo que você se vê... Eu te conheço muito para perceber isso... O que é então que te aflige?
- Você. – Ela disse, olhando para os pés novamente. Confesso que congelei por alguns segundos, antes que ela pudesse começar. Ela temia o monstro? Ela tinha acolhido o monstro, mas mesmo assim o temia? Ela só seria capaz de fazê-lo enquanto estivéssemos separados por uma máquina? Ela presa na Torre e eu perdido na Selva de Luzes? – Não... Na verdade não é de você que eu tenho medo... – Ela dizia numa voz muito fininha, quase inaudível para a força com que sua voz costumava sair. Então ela me olhou nos olhos novamente. – Eu tenho medo de me apaixonar por você. - Então tudo fez sentido. Absolutamente tudo. Como nós poderíamos abrir os nossos corações depois de tudo que havíamos passado até então? Como ela me veria se eu dissesse que a amava? Isto poderia nos separar? Isto acabaria com nossa amizade? Isto faria com que deixássemos de sermos nós para nos envolvermos nas aventuras e nas leis de um romance? Ela desviou o olhar. Isto não era típico de Lia.
- E se eu dissesse... – Eu poderia ouvir as batidas do meu coração. Aquilo era ridículo. Eu não tinha 15 anos de idade. – E se eu dissesse que...
- Que? – Ela perguntou, voltando a me encara.
- Que eu estou apaixonado por você? – Ela me olhou incrédula. Eu poderia ter comentado algo do tipo alguma outra vez, mas nunca tão seriamente. Nunca próximo o suficiente. Nunca no momento propício.
- Vincent...
- Nada vai mudar, Lia. Eu ainda serei o mesmo chato de sempre, só que um pouquinho mais possessivo...
- Vincent, você sabe que nós não somos bons com romance, você sabe que acabamos de sair de dois grandes fracassos, nós devemos estar frágeis, usando um ao outro como escape...
- Não é verdade. A verdade, Lia, é que eu sempre achei impossível que ficássemos juntos, desde aquele último incidente, é por isso que eu nunca disse nada, eu nunca fui a favor desses romances impossíveis, inalcançáveis, até ser capaz de te ver novamente. É por isso que eu nunca me permiti... Me permiti sentir isso. – Eu peguei a mão dela para que ela pudesse sentir meu coração acelerado. Ela tremia.
- Vincent, eu sou um horror como pessoa... Eu te deixei quando você foi...
- Que escolha você tinha, Lia? Diga-me, que escolha tinha?
- É, mas... – E então ela começou a falar. Ela sempre faz isso quando fica nervosa. Começa a falar coisas auto-depreciativas e eu percebi que não estava prestando atenção à conversa. Eu estava mais interessado nos movimentos. Nos traços, nos gestos. Até que eu não pude mais me segurar e me permiti agir por instinto. Eu a envolvi e a puxei para perto de mim. E então eu a beijei. Eu não poderia imaginar como ela iria reagir. Surpresa, no primeiro momento, mas logo depois lá estava ela retribuindo meus beijos.