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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Para Lia, com carinho.


Era uma vez uma menina. Seus nove anos contavam-lhe sete duas vezes e quatro. Onde quer que fosse, a menina ouvia o som suave de um piano. Sim, um pianista estava sempre a sua direita, mas apesar de tempos em tempos, ele girava dançando ao redor de seu corpo, como gira a terra ao redor do sol {porém nossa menina banhava-se da lua}. Esta lua, por vezes lilás, escondia uma terra de noves deuses. Estes deuses eram tecelões e fiavam através de sua força vital.

Os noves deuses criaram diferentes vidas baseadas no elemento água. O mundo era na verdade de cachoeiras e mares, rios e oceanos.. Um deus, porém, foi mandado à terra e conheceu a menina. O deus era o pianista. O pianista que girava. O pianista que escrevia sem saber e querer escrever. Mas ele escrevia porque é essa é a forma que ele encontrou para que ela soubesse que ele a esperava. A esperava quando o mar a chamava. A esperava quando ela desejava partir, mas simplesmente não conseguia.. A esperava quando ela fechava seus olhos, vencida pelas pálpebras cansadas e sonhava.

A menina não gostava de sonhar. Não gostava porque isso a fazia sofrer. Ou gostava, porque nossa menina apreciava sofrer, talvez porque nasceu sofrendo e esta foi a razão para que ela e o nono deus pianista se encontrassem. O sofrimento os uniu e o que o sofrimento une, homem algum é capaz de separar.. Voltando aos sonhos, o deus era metade Senhor dos Sonhos e metade Senhor da Vida. Ele a conduzia pelas alamedas sombrias dos sonhos e mostrava imagens surpreendentes que ela jamais poderia ver com os olhos mortais.

A outra metade, porém, aumentava a intensidade com que seus olhos enxergavam as cores. Havia muitas cores. Cores surpreendentes. Cores que nenhum outro poderia ver, apenas ela quando via através do pianista. Mas eis que então, o Senhor dos Sonhos finalmente fez descer o crepúsculo e numa última piscadela diante certo laranja berrante, a menina percebeu que não há verdade nos olhos e nas cores se o que resta é apenas a escuridão.

Era a hora de partir . A menina então finalmente libertou-se dos grilhões que acorrentavam sua alma. Seu desejo? Voar e sentir. Ela ouviu novamente a poesia que há três anos já havia sido cravada em sua pele e agora traçava, em forma de luz, uma espiral para o universo passado: “toda alma num cárcere anda presa. Solução nas trevas entre as grades. Do calabouço olhando a imensidade...”

A menina permitiu ao Senhor dos Sonhos que a levasse por inteiro. Ela sabia que ele cuidaria para que agora apenas seu corpo fosse consumido por vermes. Sua energia (finalmente) foi resguardada para si e para os vôos que seguiram.

Ela estava no meio de um salão. Não havia luz. Seu corpo forma um pentagrama quando deitada no círculo perfeito. Havia uma leveza jamais sentida. Ela iria acordar em breve para o sono eterno.

O Senhor dos Sonhos esperou pacientemente. Por fim, ela abriu lentamente os olhos, e seu corpo dançou como o mais belo e fino vestido ao ser tocado pelo vento. Ela finalmente percebeu-se livre e leve. Sim, a capa que a pressionava foi removida... Ela virou-se lentamente e percebeu Morpheu. Ela não o viu, o sentiu. Eles se tocaram, em silêncio, porque ali não havia necessidade de palavras. Então ela sentiu, finalmente, a vibração da verdadeira Energia. Ela compreendeu, (finalmente), o que é intensidade...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Terceira Vez

Nunca me importei com datas. Estou escrevendo febrilmente desde manhã sobre nossos encontros. Sempre que termino tudo, checo os detalhes. Eu sei que tenho uma memória humana e isto é terrível. Eu deveria ter escrito nos dias dos acontecimentos, mas eu estava muito envolvido nas lembranças para ter que usar as malditas palavras sobre elas. Como disse para Lia uma vez, eu não sou uma máquina de filmar. Nem pintar poderia, já que definitivamente eu não faço isto na selva de metal. Máquinas de retratos estão proibidas por mim. Propagandas no orkut também. Eu sei que um dia meu computador vai desaparecer, então a Internet é o meio mais seguro que encontrei para perpetuar minhas lembranças e este blog é a maneira mais silenciosa de fazê-lo. Eu disse a ela que não queria que as pessoas descobrissem. Nós não vemos o orkut da mesma forma. Eu não estou condenando-a, só estou dizendo que são comportamentos diferentes. Eu já quis revelar ao mundo a minha identidade, já desejei documentar passo-a-passo de minha estúpida existência e já quis que as pessoas comentassem sobre isso. Hoje, pouco me importo com a opinião corrente. É claro que não fujo do orkut, é claro que eu gritaria para quem quer que fosse que eu a amo. Eu só não quero que isso seja feito como no passado e sei que ela também assim não quer. E por mais que eu queira ser silencioso sobre isso, eu não gostaria de apagar seus recados. Eu gosto de lê-los quando ela não está online, eu me divirto com as nossas brigas, eu suspiro através das nossas declarações... Mas, como já disse, não farei propagandas em relação a isso. Os curiosos que parem para ler.

Aquele era o dia. Ela estava vindo para cá. Eu estava prestes a tocá-la novamente, a tê-la novamente nos meus braços... Eu não havia feito nenhuma propaganda, mas certamente poderia soltar fogos se isto fosse possível, simplesmente para representar a minha alegria. Eu estava parecendo um bobo. É sempre assim quando ela está por perto. Eu demoro um pouco para voltar ao normal. Enfim, eu tinha esperado o dia todo, fazendo minhas obrigações “roboticamente”, estudando por obrigação. Não havia nada que eu já não soubesse. Era quatro horas da tarde. Faltava uma hora para que nosso encontro, ela já estava em JF. Então começou a chover. “Droga, droga!”. Eu nunca amaldiçoei tanto a chuva como naquela dia. Até hoje me sinto culpado por isso. A chuva apenas dificultaria nosso encontro. Não vê-la depois de uma semana de espera seria uma tortura completa. Eu não poderia ligar para ela, então mandei uma mensagem. Eu deveria saber que aquele era o número da mãe dela. Ela havia me avisado quanto a isso, afinal. Mas logo depois me acalmei lembrando que sua mãe não era boa com celulares. Depois de dez minutos eu obtive minha resposta: “eu espero q vc queira arriscar sua kbça ficando cmigo no shopping hj. Ñ poderemos ir muito longe. Ela vai assistir a uma sessão e eu estarei fingindo q vou ver outra. Bjo, Lia”. “Sinal que teremos apenas duas horas para ficarmos juntos”, pensei. Bem, estava tudo dando muito certo, eu não queria que desconfiassem de nada. Duas horas era muito melhor que nada. Uma hora depois eu estava em frente ao cinema do mesmo shopping. Ela parecia muito preocupada, mas ficou aliviada quando me viu

- Desculpe te fazer passar por isso – Ela sussurrou enquanto nos abraçávamos.

- Você é o melhor presente que eu poderia ganhar, do que é que você tem que se desculpar?

- Eu sei que shoppings não é o melhor lugar... – Ela fez uma careta.

- Bem, eu conheço um lugar. – Eu disse sorrindo. Então nós fomos até o enorme estacionamento. Não estava quente, nem abafado por causa da chuva. Havia um certo lugar, uma espécie de janela de vidro enorme. Podíamos ver parte da cidade iluminada, ouvir o barulho da chuva e usarmos o parapeito da janela baixa como banco. E o melhor – estamos escondidos pelos carros. Não havia tanto barulho, a não ser de um carro o outro saindo. Mas ninguém poderia nos perceber ali, a não ser os caras que estacionaram bem em frente.

- Ah... – Ela exclamou. – Por que eu não pensei nisso antes?

- Bem, eu espero que não esteja sujo.

Ela passou o dedo no parapeito da janela.

- Não, está limpo. Até parece que foi feito para isso.

- Isso o que? – Eu perguntei brincando.

- Dois jovens fugitivos, que detestam o movimento do shopping, mas não têm lugar melhor para namorar. – Ela sorrindo.

- Nós temos quanto tempo? – Tempo nunca foi tão importante como era agora.

- Você está começando a ficar neurótico tanto quanto eu.

- Sim. – Eu olhei para os lados. – Estamos sendo observados? – Nós rimos. Eu me sentei mais próximo do que pude ao seu lado. – Eu senti muito sua falta. – Disse por fim.

- Eu também...

Então nós dispensamos as palavras. Eu nunca gostei de conversar com ninguém tanto quanto eu gosto de conversar com ela, mas sabíamos que teríamos outros meios para conversa. Não tínhamos muito tempo para estarmos próximos fisicamente a aquilo estava ficando cada vez mais necessário. Como uma droga, cujas doses eu deveria tomar pouco a pouco e lentamente... Eu amava sentir o toque do seu coração, eu amava perceber que ambos estávamos literalmente arrepiados, eu gostava quando ela tremia suavemente. Eu enlouquecia quando ela mordia meus lábios. Meses atrás eu pensaria que isto jamais seria possível. Meses atrás eu pensaria que nunca mais a veria pessoalmente... Agora lá estava ela. Nos meus braços. Num dia de chuva. Lá estávamos nós. Nos beijando em um dia de chuva... Fiquei muito triste porque tudo teve que ser bastante rápido. Ela deveria chegar um pouco antes de acabar a sessão, para que sua mãe não desconfiasse de nada. Desta vez eu nem poderia insistir para que ficasse. Nem poderia fazer brincadeiras... Ela deveria ir para o nosso bem. Mas eu não saberia quando ela iria voltar. Ela veio aqui três vezes apenas no começo das férias e não haveria outros motivos para que a família voltasse novamente.

Eu estava triste e ela sabia disso. Eu me sentia literalmente insaciável e ela também. Eu queria tomá-la nos meus braços e fugir, mas isto seria um erro imperdoável...

- Desculpe, mas eu tenho que ir...

Eu concordei com a cabeça.

- Não fique triste, Vincent. – Ela me olhou implorando.

- É impossível, Lia. Eu queria passar o Natal com você. O ano novo, o resto da minha vida...

- Um dia você irá. Eu prometo. – Então ela me beijou longamente e subiu sozinha para o cinema.

A Segunda Vez

Como pintor (de telas) posso aventurar-me em tentar colocar no papel os fatos, os acontecimentos. Mas é-me impossível tentar descrever a verdadeira sensação que é tocá-la. É como permitir-me cheirar as rosas molhadas pelo orvalho. É sentir meus lábios queimando, queimando, e querer ainda mais fogo. É isto e muito, muito mais. Eu não me atreveria a ousar com nenhuma mais palavra.

Quando eu a vi pela segunda vez, ela não usava um vestido. Desta vez era uma calça jeans e uma bela blusa preta. Desta vez ela deixou a franjinha para frente. Havíamos combinado de nos encontrarmos no mesmo local, no mesmo horário. Ela beijou-me rapidamente nos lábios e fez sinal para que saíssemos rapidamente do shopping. Ela não queria ser vista. E não é que, talvez por isto mesmo, ela teve o desprazer de encontrar com um conhecido ao sair? Não me lembro seu nome. Eu nunca o vi no orkut dela.

“É seu namorado?” Ele perguntou com uma curiosidade sincera.

“Sim”. Ela disse. E rapidamente me puxou dali.

- Onde nós vamos? – Ela perguntou focada. – Podemos conhecer seu apartamento?

Eu a olhei espantado.

- Estamos com tanto tempo assim? O FBI não irá atrás de mim? - Eu perguntei, brincando.

- Não. Eu prometo. - Ela sorriu.

- Que horas eu terei que te trazer de volta?

- Às nove.

- Nove. Certo. Isto significa que temos um pouco menos de quatro horas até lá.

- Sim, minha mãe não quer chegar em casa antes da meia-noite, sabe como é.

- É, eu sei.

- É longe? – Ela perguntou quando entramos no carro.

- Não. Nada longe. É que eu não quero te trazer a pé quando for mais tarde.

Poucos minutos depois chegamos ao meu apartamento. Foi a primeira vez que não xinguei por ter que procurar uma outra vaga para estacionar. Será que os moradores ainda não perceberam que cada um deve respeitar a vaga do outro? Subimos rapidamente pelo elevador. Eu a abracei. Não queria perder um segundo daquilo. Quando entramos ela parecia um tanto surpresa, mas de forma positiva.

- Tem alguém aqui?

- Não...

- Ah! – Ela pulou. – Então eu posso gritar. Uau! É fantástico! Eu tinha imaginado completamente diferente! Você sempre descreveu tudo de uma forma tão fria...

- Hum, como você tinha imaginado?

- Sei lá, um apartamento pequeno, neutro, frio.

- Bem, eu sinto que este apartamento é frio e pequeno...

- Nossa, só a sala é do tamanho da minha casa!

Eu sabia que ela estava exagerando – e muito – mas é muito interessante vê-la neste estado, correndo de um lado para outro pela sala, observando os detalhes, as fotos, a decoração. Sorrindo e comentando sobre tudo.

- Por que você não gosta daqui?

- Eu não sei... Eu prefiro minha casa, eu acho. Um lugar mais afastado, mais próximo da natureza... Um lugar onde eu poderia me expressar melhor.

- Ah... – Ela fitou-me por uns instantes. Envolveu-me nos braços e deu um longo suspiro. – Eu espero que você logo se mude para um lugar confortável para você.

Eu ri passando a mão pelos seus cabelos.

- Eu não sei, pequena. Eu estava em casa durante minhas crises. Até minha mãe não quis voltar, ela nunca gostou muito disso aqui. Mas que importa? Ela só vai para casa para dormir, de qualquer jeito. Mas logo, logo eu estarei na faculdade, vamos ter que procurar um apartamento – e rápido.

- Ah... – Ela suspirou. – E você vai se mudar para onde?

- Eu não sei ainda. Talvez eu vá para Viçosa...

- Não! Não! Você não pode se mudar para lá, é muito longe! – Ela apertou meu braço suavemente.

- Lia, se for para recomeçar que seja longe daqui... Longe das lembranças...

- Fugir não vai adiantar nada, Vincent.

Eu não temia falar do meu ex relacionamento com ela. Eu sabia que de certa forma isto poderia machucá-la, mas me machucava também o modo com que ela via seus últimos romances. Sinceridade era a marca do nosso relacionamento. Eu sempre a amei, mas eu não poderia afastar os fantasmas de mim.

- Eu não estarei fugindo, Lia. Eu apenas quero começar em outro cenário. Um cenário menos confuso, que não tenha babás. – Ela sabia que eu me referia ao modo com que era tratado depois de certas crises.

- Tudo bem. Não vamos falar sobre isso, pelo menos não agora. Você não vai me mostrar o resto do apartamento?

- Sim, primeiro a cozinha. – Nós viramos à esquerda e entramos na pequena cozinha. Nunca admirei os jogos mobiliários da minha mãe. A não ser pela nossa – verdadeira – casa. – Você aceita água, refrigerante, café?

- Uau, você sabe fazer café?

- Um homem tem que aprender a se virar sozinho no mundo, criança. – Nós rimos. Eu fui até a dispensa e peguei um passatempo. – Pensa rápido! – Ela logo entendeu meu recado e pegou o pacote de biscoitos no ar com as duas mãos. – Eu sei que este é seu favorito e uma vez você me disse que era capaz de comer um pacote inteiro em menos de cinco minutos. Então, eu quero só ver do que você é capaz.

Ela olhou timidamente para o pacote de biscoitos.

- Ah, Vin? Eu simplesmente amo passatempos, ma acabei de comer um amb...

Eu ri de sua ingenuidade.

- Estou brincando, sua boba. – Fui até ela e a envolvi em meus braços e quando a situação estava um pouco “avançada” ela me afastou suavemente e disse, sem fôlego:

- O resto da casa. – Eu sorri. Sinceramente eu não estava acostumado com interrupções, muito pelo contrário. E aquilo era bom. Eu senti como se ela nos respeitasse e apesar da imensa saudade e vontade de tê-la, eu senti que aquilo era bom. Era certo. E então eu fiquei muito, estranhamente confortável.

Eu mostrei cada cômodo e ela parecia muito ansiosa para ver meu quarto.

- Seu mundo! – Ela disse enquanto atravessamos aquele pequeno antro de bagunça semi-organizada. – Nossa, como você é organizado! – Ela exclamou, feliz.

- Você está brincando! Ah, desculpe, eu esqueci que você tem sérios problemas com organização. – Nós dois rimos.

- Posso inspecionar?

- Sim, ele é todo seu.

Então ela foi andando para de um lado para outro, observando cada detalhe na prateleira, comentando os títulos do livro, entretendo-se com o design do computador, quando, por fim, parou em frente a um quadro pendurado na parede, logo acima da cama.

- Foi você quem pintou?

- Sim, eu tenho o péssimo hábito de não assinar e nem colocar títulos.

- Você pintou todos os quadros que eu vi aqui?

- Sim.

- Uau! – Ela disse admirada – UAU! Como eu queria saber pintar assim! Nossa, eu daria tudo para... Nossa, é tão lindo! – Então ela começou a me elogiar e eu me senti corar. Ninguém nunca tinha me feito sentir daquela maneira.

- Ah, eu estava quase me esquecendo. – Eu disse. Então eu fui até minha escrivaninha e dei a ela o desenho que eu havia feito. Num instante pensei que ela estivesse tendo um ataque, mas era apenas felicidade. Ela me abraça e me beijava rapidamente nos lábios, depois voltava, estudava o desenho e fazia um elogio. – Mas nunca o mostre para ninguém. Nem o descreva e, principalmente, nunca o coloque na Internet. Isto é nosso. Ninguém precisa ficar sabendo, ninguém precisa ver... É um segredo nosso.

- Sim – Ela concordou.

- É para você lembrar de mim quando estiver sozinha. Veja, eu tenho um igual, mas o meu um (não posso comentar aqui).

- Ah! É tão lindo, Vin!

- Eu nunca gostei tanto de você quanto gostei agora... Você é muito mais emocionante pessoalmente, Amélia. – Eu disse de modo a enfatizar que eu reconhecia a personalidade ali. Os olhos dela brilharam.

- Como você... Como... ?

- Você não é uma pessoa difícil de ler, Lia. – os dois rimos. – Já terminou sua inspeção?

- Na verdade, não... – Ela continuou andando pelo quarto, observando tudo minuciosamente. É como se ela quisesse absorver o ar. O meu ar. Eu me sentei na cama e esperei pacientemente. Ela queria saber tudo sobre mim. Eu queria saber tudo sobre ela. Então enquanto ela estivesse observando meu quarto, eu estava observando seus gestos. Foi quando ela parou e começou a me observar também. Eu fiz um gesto para que ela se sentasse ao meu lado.

- Eu não acho que seja uma boa idéia... – Ela disse.

- Pode vir. – Eu sorri. – Eu nunca vou fazer nada que você não queira fazer. Confie em mim pelo menos uma vez na vida, Amélia. – Eu estava achando muito divertido chamá-la pela vertente. Ela sorriu e (tudo bem, isto é extremamente clichê) o mundo pareceu mais colorido.

- Quem disse que eu não confio em você? – Ela se sentou do meu lado. – Na verdade, eu não confio é em mim.

- Bem, agora você me deixou numa encruzilhada. Eu não sei se consigo me segurar por nós dois. – Nós rimos.

- Eu adoro o som da sua voz quando você sorri. – Aquele tinha sido um comentário surpresa.

- Eu adoro tudo em você. – Eu disse colocando meu nariz próximo ao dela.

- Não é verdade... Nós brigamos o tempo todo.

- Hum, não são brigas comuns, você já percebeu?

- É verdade...

- Talvez porque temos que fazer algo para driblar a intensidade.

- Por quê? – Ela perguntou, curiosa. Eu adorava essas perguntas.

- Porque a intensidade é perigosa.

- Mais que eu?

- Muito mais que nós dois juntos...

- Prova-me.

- Lia, cuidado com seus desejos...

E então nós ficamos um bom tempo namorando como se não houvesse horário, nem restrições. Até que o celular dela tocou. Aquilo me assustou muito. Eu estava realmente concentrado em nós. Pensei que fosse a mãe dela ligando, mas era um despertador.

- Despertador?

- Bem, eu tenho que ser prevenida, não é?

- Você achou que iria dormir? Não aconteceu nada e nós sabíamos que não aconteceria, então, por...

- Porque se isto não tivesse tocado eu provavelmente continuaria beijando você até o dia seguinte e não me daria conta das horas... Mesmo sendo apenas - ela corou - beijos.

- É verdade. – Eu disse. Ela se levantou aproximadamente para vestir a única peça de roupa que tinha tirado, os sapatos. Eu a peguei pelo braço e ela caiu sorrindo na cama. Eu a beijei e ela me afastou.

- Vin, eu preciso ir.

- Não, não precisa. Fica aqui. Vamos fugir. Você não precisa ir...

- E você quer que o mundo fique sem uma futura diplomata honesta? Você é tão egoísta... – Ela disse mordendo meu lábio.

- Sim, eu sou. Eu pago sua faculdade. Eu me mudo para o Rio. Nós moraremos juntos. Viu? Você não precisa da sua família...

- Nossa! Que plano perfeito! – Nós rimos.

- Eu não estou brincando, Lia... Eu não me importo de perder um ano da minha para fazer vestibular o ano que vem. Se bem que tem alguns vestibulares no meio do ano...

- Pare de falar besteira, Vin. – Ela me disse dando um tapinha no meu braço. – Primeiro que o dinheiro não é seu, é da sua mãe e ela nunca iria deixar para uma estranha completa...

- Primeiro que você não é uma estranha completa, segundo que eu farei direito justamente para poder dirigir a empresa que por sinal era do meu pai...

- Isto é um absurdo! – Ela levantou-se num galope. – Eu jamais me casaria com dezoito anos, jamais ficaria nas costas do marido. – Eu entendi o que ela queria dizer com isso. Ela nunca cometeria o erro de seus familiares novamente. Ela queria ser completamente independente e faria isso assim que arrumasse um emprego.

- Eu estou brincando, Rosa. – Peguei seu braço novamente. – Você ficou linda nervosinha.

- Não mais que Morpheu.

- Hahaha. Eu estava brincando, tudo bem? Vamos esquecer isso.

- Vin, eu sei, mas olha... Eu realmente tenho que ir.

- Sim, é verdade. Falta pouco para às nove. – Eu suspirei e fui pegar as chaves do carro. Ela me abraçou por trás. Provavelmente achou que eu estivesse chateado pelo tom de sua voz e não porque ela estava indo embora. Ela beijou meu pescoço e disse “Eu te amo”.

Eu me virei e a beijei até que ela me parece para que pudéssemos ir embora. “Eu te amo mais”, eu disse. E agora a situação ficou melosa demais. Eu nunca fui tão meloso em toda a minha vida. Como pode? E eu gosto disto. Eu gosto do meu "eu" quando estou com ela.

- Tem certeza que não quer que eu entre com você?

- Não, é melhor não. – Ela disse me beijando rapidamente nos lábios. – Obrigada por tudo.

- Eu quem agradeço. – E então quando ela estava se virando eu a chamei. – Não se esqueça de entrar na Internet quando chegar em casa. Eu quero saber se você bem.

- Tá bom. – Ela me beijou pela última vez e sumiu na multidão. Eu senti um vazio no peito. Eu não queria que aquela noite acabasse. Eu não queria que ela fosse embora nunca.

A Primeira Vez

Eu não queria que este blog virasse um diário. Mas creio eu que meu tempo passa cada vez mais rápido. Apesar de minha memória afiada, eu não posso confiar no tempo para apagar, ou mesmo mudar o foco de minhas lembranças. É por isso que escrevo com tantos detalhes possíveis: eu não quero deixar absolutamente nada para trás. Eu quero voltar neste endereço idiota mais tarde e dizer a ela: “Está vendo? Isto tudo é sobre você. Isto tudo é sobre nós. Eu sempre soube que daria certo”.

O Shopping estava cheio como de costume. Minha ansiedade se misturou com a multidão. Eu caminhava de passos lentos até perceber Lia abrindo passagem entre as pessoas para vir em minha direção. Trajava um vestido que caia um pouco acima do joelho, o pano preto como as roupas que nós, este tipo revolucionário por exclusão, costumamos usar. Em sua homenagem eu vestia uma camisa Polo preta, mas desta vez sem listras, pois como ela, queria sentir-me “berçário das estrelas”.

Ela calçava uma sandália cujas tiras estavam trançadas e amarradas no tornozelo, o que chamava ainda mais atenção para suas pernas grossas e bem torneadas. Seu cabelo estava solto; um arco de falsas pedras transparentes cortadas em retângulo o enfeitava.

Havia me programado para tentar adivinhar que tipo de personalidade estava aflorada naquele dia. Pelo caminhar forte e decidido, pela voluptuosidade dos movimentos e pela olhar concentrado, poderia dizer que seria Juliana, mas depois de ter visto o sorriso doce que brotou de seus lábios e o jeito infantil com que acenou de longe quando me avistou, apostaria em Amélia. De qualquer forma, a emoção que me tomou o peito no momento em que a vi (depois de tanto tempo querendo enganar a distância com uma máquina) foi tão grande que deixei de lado minha análises prévias. As palavras não foram necessárias no primeiro contato. Ela me envolveu fortemente e ficamos abraçados por um longo tempo. Antes que pudesse dar por mim, pegou em minha mão e ordenou:

- Vem por aqui.

Íamos contra o fluxo daquela passarela, mas ela a atravessava sem nenhuma dificuldade. Quando chegamos até o elevador, meus ouvidos se acalmaram, aliviados pela redução do barulho. Encarei seus olhos e disse sorrindo:

- Pensei que nunca mais fosse ver você.

- Isto seria impossível, Vincent. – Respondeu retribuindo o sorriso. Este momento durou pouco, pois quando chegamos ao térreo, me disse às pressas:

- Finja que não me conhece.

Bastou isso para que eu entendesse o recado. Já conhecia as artimanhas da Lia, igualmente suas escapulidas da “redoma de vidro” da qual estava habituada. Um senhor alto, gordo, grisalho, de olhos azuis, marcado pela ação do tempo se dirigiu a ela perguntando:

- Ué, Lia, cadê sua amiga?

Dei alguns passos de distancia, fingindo olhar algo no meu celular, de forma a observá-la de frente, enquanto o senhor estava de costas. Liguei para seu número, sem ousar levar meu telefone ao ouvido. Ela respondeu a chamada, atuando:

- Lívia! Onde você está? Estava te esperando! Ah, você já tá aí fora? Espera que eu to indo pra’í. – E, dirigindo-se ao senhor – Ela tá me esperando lá fora.

- Ah, tá. – Respondeu ele amigavelmente – 9h na porta da shopping, hein? Senão sua mãe me mata!

- Pode deixar! – Sorrindo ela foi caminhando em direção a saída. Esperei o senhor entrar no elevador para que pudesse seguí-la.

- Desculpe. – Disse sorrindo timidamente.

- Tudo bem, Lia. Como você faz para se esconder?

- Hahaha. – Seu riso soou cúmplice – Já aprontei muito, mas como eu quase não saio, não vejo muita necessidade. Mas era geralmente algo que envolvia uma boa disposição para esconder e muita, mas muita simulação.

- Você é uma excelente atriz, já pensou em fazer teatro?

Nesta altura da conversa estávamos para atravessar um local onde passavam carros que entravam no estacionamento, quando ela foi andando distraída e eu tive que puxá-la para que não fosse atropelada.

- Calma, Lia, estamos em Minas, mas aqui não tem 3000 habitantes.

Disse brincando, mas notei que algo estava errado. Ela levou a mão na testa e parecia desabar.

- Lia, o que houve?

- Lembra quando você disse que às vezes o mundo parece cair para a direita? Então, eu me sinto assim... Às vezes pareço estar dentro de um barco e tudo simplesmente gira. – Ela sorriu. Sorriu como Ismália sorri e eu sei o que isto significava.

- Eu não sei se estamos preparados para sair andando por aí sozinhos.... Se o mundo acabar, juro que não é minha culpa.

Já era noite quando eu a levei para um lugar afastado. Pediu que fosse assim. Desde o dia em que eu tinha mostrado minha verdadeira face, desde o maldito dia em que meu ser explodira como um vulcão, ela “precisava dar-me o que eu queria”. Palavras dela. Sim, não haveria salvação se aquilo nom fosse feito. Nom haveria libertação de ambas as partes se ela nom o fizesse. E assim ela foi arquitetando um plano que eu não sabia qual.

Estávamos numa praça com muitas árvores de grande porte. Sou minucioso no que diz respeito a observações alheias, até mesmo um pouco neurótico, por isso escolhi um lugar onde ninguém poderia nos espiar. Eram três as árvores que nos cercavam, abrindo espaços consideráveis entre si, mas como o lugar estava deserto, apenas pouquíssimas pessoas (bêbados desinteressados) passavam por ali, não me importava. Mesmo pisando na ilhazinha gramada, ali, escondidos, fiz questão de estarmos. Eu não estava entendendo o que ela estava por fazer – melhor assim. Até que ela abriu sua bolsa, enfiou o arco ali dentro. Já não estava tão doce, seu olhar era vago, quase vazio. A maior surpresa foi quando tirou uma pequena faca da bolsa. Fora um trabalho árduo roubá-la da cozinha sem que sua mãe percebesse. Mais árduo escondê-la na bolsa de forma a não despertar desconfianças, revelou-me mais tarde.

- Tome. – Ela disse.

- Para que isto? – Perguntei com total desconfiança e apreensão.

Sem me responder, com um suave movimento, fez com que a alça de seu vestido caísse consideravelmente, afastou seus cabelos, deixando à mostra seu ombro esquerdo. Com a mão direita fez um sinal de meia lua na região e ordenou:

- Corte.

Pisquei, confuso.

- O que é isto, Lia? Olhei-a nos olhos. A luz de um poste próximo a iluminava. Talvez por isso ela tinha a aparência fantasmagórica, como que envolta por algo sobrenatural.

- Não era isso que queria? Vamos! Corte, beba meu sangue!

Eu a olhei incrédulo. Quem estava por trás daqueles olhos? Que movimentos hipnotizantes e perigosos eram aqueles? Juliana? Elisa? Quem que eu ainda não havia conhecido?

- Não ouviu o que eu disse? – Ela perguntou. – Corte, beba-me! – Cada palavra dita me fazia estremecer – Não te dou meu pescoço, pois hoje nom procuro a morte. Mas se é esta a maldição, sinta o controle, controlando-me.

O que ela estava pensando? Não sabia ela que estava se envolvendo com um louco? Talvez pudesse despertar em mim o mesmo sentimento animal que havia nela, sim, aquele que quase inconscientemente revelei, o motivo pelo qual estávamos ali. Será que depois de todos aqueles segredos imundos revelados ela não sentia medo? Eu tinha medo de mim quando os revelava, medo do que seria capaz de fazer a ela.

Manchetes do dia seguinte passavam pela minha cabeça: “Garota de 18 anos é assassinada; Assassino se mata em seguida” “Jovens que fazem pacto no parque são encontrados mortos no dia seguinte”; “Tia desesperada processa representante da Mercedes”.

“ A jovem Lia R. F foi encontrada morta ontem, no Parque (nome do parque). A jovem, natural da cidade (nome da cidade), visitou Juiz de Fora para passear com a família. Com a desculpa de que iria se encontrar com uma amiga, Lia se despediu da tia responsável (nome da tia) pela última vez. Ao invés de fazer o prometido, foi de encontro a um amigo que pouco conhecia pessoalmente.

‘Os dois se comunicavam escondidos pela Internet, pois a mãe dela não gostava dos modos de Vincent. A Lia sempre gostou de coisas estranhas. A mãe dela sempre foi contra esses gostos atípicos, por isso a proibia de conversar com quem tinha certas afinidades’, conta uma amiga de Lia.

Vincent é o provável assassino, um jovem de 20 anos que sofria de esquizofrenia. Ninguém sabe ao certo ao causa da morte, mas policiais acreditam ter sido um “suicídio encomendado”. Os indícios apontam para isto, pois a mesma faca que havia sumido da casa

de Lia fora usada na hora do crime. Lia, portanto, teria levado a faca por conta própria, encomendando o próprio assassinato.

‘Eles faziam parte de uma seita secreta’ Afirma um amigo em comum. ‘Eles viviam dizendo “Por Gordon” e Lia vivia repetindo coisas estranhas. Tinham um linguajar próprio e se vestiam de um modo esquisito. Com certeza Lia foi vampirizada’

‘Os jovens de hoje estão cada vez mais propensos a atos como esses, pois não tiveram uma boa estrutura familiar’ afirma a psicóloga (nome da psicóloga). ‘Com certeza esse é um caso típico de morte por exclusão’ termina.

A polícia afirma que terá os laudos reais até semana que vem, enquanto isso ambas as famílias ficam sem saber o motivo e como se sucedeu o crime”.

Até então não compreendia a destreza do seu plano. Senti meu coração bater forte, senti minha respiração ofegante, senti-me confuso. Aqueles olhos me possuíam, me queimavam. Esperava tudo dela, menos aquilo. Permaneci em silêncio, imóvel, confuso e vazio ao mesmo tempo.

- Covarde. – Disse ela, encarando-me.

Covarde. Sim, covarde. Eu estava agindo como um verdadeiro tolo. Aquela afirmação me acordou de súbito. Agarrei-a pelo braço enquanto ela me dava às costas e chamei:

- Ismália! – Ela, queimando em brasa, respondeu-me entre os dentes, fazendo sinal negativo com a cabeça:

- Juliana!

- Amélia! – Dei um passo em sua direção. Ela recuou, como eu esperava.

- Juliana! – Mais um paço, outro recuo.

- Emily!

- Emily?! – Exclamou ela, confusa.

- Uma versão americanizada para “Emília” – disse brincando. Notei confusão em seus olhos, como esperava. Uma pausa, continue: - Lia... Lia, olha... Como eu... – Senti uma onda de fraqueza que a razão combateu raivosamente. Não era hora de ser frágil, era hora de ser justo com a minha verdade, e justiça requer uma boa dose de coragem. – Eu não sei como um dia eu pude imaginar certas coisas sobre você e não, Lia, eu não vou culpar a minha loucura, nem minha condição humana e errônea. Eu entendo perfeitamente o que você quis fazer...

- É mesmo? – Ela me interrompeu - E o que eu quis fazer?

- Mostrar através da realidade, do contato físico, que não era aquilo que eu realmente queria; que aqueles pensamentos não faziam parte de mim; que aquilo tudo fazia parte de uma ordem inversa, não natural. Você queria que eu a tocasse e dissesse exatamente o que eu estou dizendo agora. - Ela sorriu. – Só que tem mais, Lia, eu agradeço a Gordon por não ter sido necessário fazer qualquer mal a você.

- Na verdade eu...

- Só um minuto. Olha, só houvesse qualquer resquício de dúvida quanto aos sentimentos bons que eu sinto por você, ela teria se dissipado no momento em que vi você sorrir, no momento em que você me tocou; tocou realmente, sem a necessidade de uma máquina ou qualquer coisa do tipo. Você não precisava ter se arriscado tanto para me libertar.

- Eu não...

- Eu não entendo de onde tirei tanta podridão; talvez por você ser como eu. Controlar você seria como controlar minha insanidade, maltratar você seria como arrancar meu próprio cérebro defeituoso. Além disso, por me sentir constantemente controlado, por ter problemas com o poder, julgava você como eu, ou inferior, portanto mais fraca. Mas eu me esquecia, Lia, que apesar de você acorrentar as pessoas como todos fazem num relacionamento (isto é inevitável), você cria correntes infinitas para que aquela pessoa se sinta livre, como está fazendo agora comigo. Ah, por favor, Lia, não me compreenda mal, agora percebo: é exatamente isto que faz com que eu me diferencie dos inúteis. Apenas pessoas como eu conseguem captar o ambiente. Não é fantástico? É isto que me proporciona viagens intergalácticas, é isto que me fortalece! E você, Lia, você representa a beleza que há em tudo!

- Vincent...

- Deixa eu só continuar: A sua intensidade me assustava, Lia e ainda me assusta, pode ter certeza, mas cada dia que passa a compreendo melhor e vejo ainda mais beleza. Mas me assustava, pois os efeitos que ela causa, são os mesmos da minha. Eu sei como isto pode ser ruim. Eu sei como é afastar, confundir as pessoas... Eu queria, de alguma forma, matar isso de nós. Quando a maltratava em meus pensamentos, estava maltratando a mesma natureza que enxergava em mim, sendo a minha ainda mais doentia... Isto não justifica tê-la usado como válvula de escape, Lia, mas eu quero que você me perdoe.

Ela fez uma expressão estranha, como quem estava prestes a desabar.

- Não... – Ela começou a balançar a cabeça negativamente. – Não você... Eu não posso... Eu não posso assustar você... Eu te assusto? Eu TE assusto? – Lágrimas como cristais começaram a escorrer. Oh, shit. Foi a primeira coisa que eu pensei. Por que eu tive que dizer aquelas palavras? Por que eu tive que dizer que ela me assustava depois de tudo que aconteceu??

- Não, não, não... Esqueça o que eu disse... Não é ISSO... Não é como ELES...

- Como não? Ela disse. – Você disse exatamente o mesmo que todos os outros dizem!

- NÃO! – Minha voz soou aguda demais, ela estremeceu. – Desculpe. Não, Lia, perceba, naquela época eu estava com medo da NOSSA natureza. É essa a diferença, Lia... Eu não sou um pintor... Eu nunca FUI um pintor, entende? Eu não temia sua intensidade por perceber o quanto ela é real, mas sim por ter a mesma natureza...

- E qual então é a diferença? Qual é a grande diferença? Ah, espera um pouco, espera um pouco... Você tem o direito de condenar o presidente apenas se fizer parte do congresso, é isso?

- Não, Lia! – Mas por dentro eu gritava: “Como sou Imbecil! Imbecil!” – Eu sei como é ser atormentado como nós somos, eu sei como é ter sonhos que parecem reais, eu sei como dói... Como REALMENTE dói...

- Você faz idéia de como está sendo difícil para mim ouvir isso tudo? Na verdade, Vincent, eu vou seguir o seu próprio conselho: eu estou cansada de entender as pessoas, estou cansada, de como você mesmo disse, acolher as pessoas seja lá qual for a terrível verdade de cada uma delas!!! Eu quero que uma vez na vida que alguém me compreenda! Eu quero que olhem para mim não admirados por verem um potencial conto-de-fadas em ação, mas sim pelo que eu sou! Pelo o que, ou quem, ou seja lá o que for, eu sou!

- E você acha que eu não faço isso? – Perguntei mais calmamente.

Eu sabia que aquela era uma pergunta surpresa. O modo de uma pergunta surpresa. Ela andou em círculos, de um lado para o outro, olhando para os próprios pés. Estava absorta nos próprios pensamentos, nos próprios questionamentos. Tinha vontade era de sacudi-la, colocá-la em meus braços, fazer com ela compreendesse... Tomá-la dos próprios pensamentos. Pelo menos naquele instante. Tínhamos tanto pouco tempo... Então ela finalmente olhou para mim, corada. Seus lábios estavam trêmulos, sua testa franzida. Doía. Eu sabia que doía. Doía em mim também, como poderia não saber?

- Desculpe. – Ela colocou a mão na testa. – Eu estou confusa. Estou muito confusa...

- Eu gostaria de poder deixar as coisas mais claras para você...

Ela sorriu.

- Você faz. Você sempre fez isso. Deixou as coisas mais claras, depois mais escuras. Você sempre aceitou. Você sempre ME aceitou...

- Você me acolheu, Lia...

- E você me acolheu de volta. Eu sinto muito por ter feito com que você se visse na própria teoria...

- Do que é que você tem medo, Lia? – Eu perguntei, interrompendo-a.

- O quê?

- Diga-me com sinceridade, do que é que você tem medo? Não é do modo que eu vejo você, não é do modo que você se vê... Eu te conheço muito para perceber isso... O que é então que te aflige?

- Você. – Ela disse, olhando para os pés novamente. Confesso que congelei por alguns segundos, antes que ela pudesse começar. Ela temia o monstro? Ela tinha acolhido o monstro, mas mesmo assim o temia? Ela só seria capaz de fazê-lo enquanto estivéssemos separados por uma máquina? Ela presa na Torre e eu perdido na Selva de Luzes? – Não... Na verdade não é de você que eu tenho medo... – Ela dizia numa voz muito fininha, quase inaudível para a força com que sua voz costumava sair. Então ela me olhou nos olhos novamente. – Eu tenho medo de me apaixonar por você. - Então tudo fez sentido. Absolutamente tudo. Como nós poderíamos abrir os nossos corações depois de tudo que havíamos passado até então? Como ela me veria se eu dissesse que a amava? Isto poderia nos separar? Isto acabaria com nossa amizade? Isto faria com que deixássemos de sermos nós para nos envolvermos nas aventuras e nas leis de um romance? Ela desviou o olhar. Isto não era típico de Lia.

- E se eu dissesse... – Eu poderia ouvir as batidas do meu coração. Aquilo era ridículo. Eu não tinha 15 anos de idade. – E se eu dissesse que...

- Que? – Ela perguntou, voltando a me encara.

- Que eu estou apaixonado por você? – Ela me olhou incrédula. Eu poderia ter comentado algo do tipo alguma outra vez, mas nunca tão seriamente. Nunca próximo o suficiente. Nunca no momento propício.

- Vincent...

- Nada vai mudar, Lia. Eu ainda serei o mesmo chato de sempre, só que um pouquinho mais possessivo...

- Vincent, você sabe que nós não somos bons com romance, você sabe que acabamos de sair de dois grandes fracassos, nós devemos estar frágeis, usando um ao outro como escape...

- Não é verdade. A verdade, Lia, é que eu sempre achei impossível que ficássemos juntos, desde aquele último incidente, é por isso que eu nunca disse nada, eu nunca fui a favor desses romances impossíveis, inalcançáveis, até ser capaz de te ver novamente. É por isso que eu nunca me permiti... Me permiti sentir isso. – Eu peguei a mão dela para que ela pudesse sentir meu coração acelerado. Ela tremia.

- Vincent, eu sou um horror como pessoa... Eu te deixei quando você foi...

- Que escolha você tinha, Lia? Diga-me, que escolha tinha?

- É, mas... – E então ela começou a falar. Ela sempre faz isso quando fica nervosa. Começa a falar coisas auto-depreciativas e eu percebi que não estava prestando atenção à conversa. Eu estava mais interessado nos movimentos. Nos traços, nos gestos. Até que eu não pude mais me segurar e me permiti agir por instinto. Eu a envolvi e a puxei para perto de mim. E então eu a beijei. Eu não poderia imaginar como ela iria reagir. Surpresa, no primeiro momento, mas logo depois lá estava ela retribuindo meus beijos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


Fantasma. Era como me chamavam. Eu nunca brincava com os outros. Nunca corria como os outros. Não tinha a bochecha rosada. Meus olhos brilhavam de tal forma que à noite eu parecia um fantasma. Não me adaptava ao meio. Não gostava das pessoas. Na verdade eu as temia. Deve ser por isso que eu vivia me escondendo debaixo da cama todas as vezes que uma visita (especialmente por parte da família) aparecia. Minha mãe nunca percebeu. Ela estava sempre ocupada demais. Às vezes eles até se esqueciam de que havia um menino na casa. Pode não parecer, mas eu sempre fui muito silencioso. Bem, hoje nem tanto. Tiraram-me esta preciosa qualidade à força. É sobre esta pessoa (sim, eu a culpo) que vou dissertar nos próximos posts.

Era aniversário de minha irmã, Mariana. Ela fazia cinco anos. Eu tinha sete. Minha mãe resolveu fazer uma festança. Mas para si do que para Mariana. Convidou a família. Convidou os amigos. Convidou os colegas de trabalho. Convidou os vizinhos que “tinham” crianças. Convidou os amiguinhos de Mariana.

Victoria estava por estes motivos:

1) – Era vizinha.

2) – A mãe dela era amiga de minha mãe

3) – Ela era amiguinha de Mariana.

4) – Ela queria me possuir.



Sim, ela queria me possuir. Fez isto com maestria. Contarei os detalhes:

Como pode ver, havia muita gente. Muito barulho. Muito comida. Eu nunca chorei quando criança, nunca fiz escândalo. Eu simplesmente fugia para debaixo da privacidade de minha própria cama, onde eu acreditava que nunca ninguém poderia me encontrar. No começo da festa não foi tão fácil. Tive que agüentar os abraços e “carinhos” de toda a família. Tive que agüentar a implicância das crianças. E o pior de tudo: eu tive que tirar uma foto com um dos palhaços. Sim, palhaço. Desde sempre eu soube que eram mais falsos que a alegria das minhas tias. Sim, eles eram asquerosos. Coloridos demais. Sorridentes demais. Exigentes demais. Chatos demais. Então, depois disto eu certamente já não agüentava mais. Tinha que fugir dali. Esperei o momento mais oportuno, quando ninguém estava me olhando. Saí do salão de festas, percorri o jardim, entrei pela cozinha, subi as escadas e fui direto para debaixo da minha cama. O que eu não percebi na minha ânsia em fugir é que estava sendo seguido. Seguido por uma menininha muito interessada em mim. Seguido por uma curiosa de primeira que “simplesmente não entendia por que eu era diferente”. Ela foi sensata. Observou-me de longe. Esperou que eu estivesse bem aninhado debaixo da cama para dar as caras. Entrou quase imperceptível no meu quarto. Não fez nenhum barulho. Demorei para enxergar dois sapatinhos de boneca, meias brancas e um pedaço do bordado do vestido. Depois ela se ajoelhou no chão, empurrando a colcha para cima. Não disse nada. Apenas me olhou. Ficou assim por um bom tempo. Estava querendo entender que diabos um menino da minha idade fazia ali e não numa festa daquelas. Ela sempre adorou festas. Mas eu não me rendi. Não disse nada. Ficamos nos olhando por um bom tempo. Ela sabia o que fazer. Para ela eu era como um gato arisco. É sempre bom o gato cheirar a pessoa antes de se aproximar. Era isto que ela estava fazendo: permitindo que eu a cheirasse através do olhar e então, quando achou que fosse o momento certo, sorriu, estendendo a mão. Eu deveria saber. Deveria saber que aquele sorriso era tão falso quanto a alegria das minhas tias, tão falso quanto os palhaços. Mas não. Victoria sempre jogou bem. Seu nome definia bem sua personalidade. E assim, por fim, eu me rendi. Rendi-me ao sorriso. Rendi-me à mão delicada, aos sapatinhos, ao vestidinho, às covinhas, aos cabelos, aos olhos.

A partir daquele dia eu já não pertenceria mais a mim.

Eu era dela.

domingo, 9 de novembro de 2008

Como a maioria dos sofrimentos, este começou com uma aparente felicidade. Acordei seco. Meus lençóis não pareciam sair de um dilúvio como nas últimas semanas. Eu não pingava suor. Quando avistei a janela, percebi que estava em casa, não na selva de metal. Olhei para o jardim. As rosas estavam lá. Fui até o jardim. Percebi que sentiam minha falta. Todas as cores pareciam mais vívidas, mais reais. Elas estremeceram quando eu me aproximei. Sorri. A casa ainda dormia. Seu Jurandir só chegaria mais tarde. Sentei-me no chão. Contemplei as pequeninas. Lembrei de minhas últimas metáforas, mas não senti nenhuma pontada de culpa. As rosas me amam. Eu amo as rosas. Simples assim. Estava limpo. Estava curado. Deixe-me explicar melhor: esta fora a primeira noite em que não havia acordado às exatas 3:45 da manhã, depois de uma série de pesadelos sobre a morte dela. Não, ela não morreu. Mas eu sonhava que sim. Não desejava: eram pesadelos. Ontem fora a primeira noite que não fui possuído por Morpheu. Que não a joguei da escada. Que não a ouvi gritar. Que não a vi sangrar. Que não gargalhei por isso. Que não me senti culpado. Minha mente parecia estar livre dela. Dela e de suas promessas falsas. De suas incontáveis traições. Dela e de seus memoráveis pedidos de perdão. Dela e do filho que não é meu. Dela e de meu espírito assassino.

Ninguém sabe o que é acordar todas as madrugadas, no mesmo horário e olhar para as próprias mãos a fim de certificar se estavam ou não sujas de sangue. “E se Morpheu realmente tivesse me possuído? E se eu realmente a tivesse empurrado? E se...” Não. Não poderia. Eu tranco o monstro e me certifico de que está bem trancado. Mas eu tive que me afastar. Fui para casa. Para minha verdadeira casa. Minha mãe tb está aqui. Eu não estou só. Jamais poderia ficar só. Mas o simples fato de não ter sonhado, de não ter sido obrigado a assistir o filme macabro que minha mente nutre todas as noites, eu me senti puro. Finalmente poderia pintar. As tintas chegaram! Mas esta, como eu disse, era apenas uma felicidade aparente.

Fiquei um bom tempo namorando as rosas. Pensava na Menina. Ela é outra que não sai da minha cabeça. É a única que eu desejo que continue lá. Pensava, pensava, pensava quando, de repente, o mundo tombou levemente para a direita. Começa assim. Esse é o primeiro sinal. Permaneci sentado. Era hora do show. As pétalas das rosas transformaram-se em bocas. Escancaram-se. Pude ver pequenos tentáculos. Elas pareciam famintas. Lembrei da Menina. Tentei visualizar cada pedaço de seu rosto, não queria ver o mundo girar. É por isso que queria saber peneirar a dor. Quando o mundo tomba tudo fica mais nítido. É como se a verdadeira natureza do mundo fosse estar tombado. Mas quando o mundo gira, os olhos simplesmente parecem não acompanhar. Gostaria que essa parte da dor ficasse retida na peneira.

Que dedo foi aquele que me empurrou para frente? Que me fez cair em cima da roseira? Foi então que eu entendi. Foram as rosas. Elas estavam famintas. Minha saliva era a água, meu rosto era o pão. O dedo invisível me empurrava para frente e para trás, como o tic-tac do relógio. “Quem mandou?” Ouvi uma voz fininha gritar. “Quem mandou nos comparar aos humanos?” Elas me torturaram. Devoraram-me. Eu só me lembro do começo. É assim: o começo marca, o restante vira cinza. Minha sorte é que ninguém viu. Este é o nosso segredo, não espalhe. Ou espalhe, se quiser, mas ninguém entenderia. Como eu disse, é um sofrimento que começa com uma alegria aparente.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Por um impulso havia sido induzido a contar a Lia verdade. Queria que ela enxergasse o monstro que eu era. Não mais poderia esconder os pensamentos que vinham sorrateiros e malignos me assombrar. Não mais poderia esconder quem eu era e de que forma eu a imaginava. Precisava mostrar-me. Apesar de estarmos separados por uma máquina, apesar da diáfana imagem vinda de forma distorcida através da web cam, conseguia imaginar um lugar tão verdadeiro que acabei tomando aquilo como realidade, como sempre faço. Imaginei seus olhos olhando diretamente para mim, não para uma câmera. Quando liam, imagina que ela estava, na verdade, prestando atenção no que eu dizia.

Estávamos, na minha mente, numa sala ampla, onde Gárgulas neo-clássicos nos observavam curiosos. O lugar era claro, amplo, limpo. Eu era a maior e pior sujeira que ousava estar ali. Os vitrais não poderiam ser mais alegres, vivos e coloridos que um artista feliz e otimista poderia ter criado. Eu pensei que, ao contar como me sentia, ela iria correr desesperada, com as mãos em seus olhos, enxugando as lágrimas. Pensei que nunca mais fosse vê-la, pensei que ela me odiaria para sempre como eu fazia comigo mesmo. Pensei que fosse cuspir em meu rosto, chamar-me de imundo, inescrupuloso. Já ouvia seus gritos: “Eu tenho NOJO de você”. Era isso que uma pessoa comum diria, portanto era isto o que eu esperava. Mas eu deveria saber há muito que Lia não é comum. Não se pode esperar nada de Lia, ela sempre surpreende. Mas mesmo assim, por essa verdade ser tão forte e pavorosa, e por ser direcionada a ela, pensei que Lia se comportaria da pior forma. Mas o que ela fez foi sentar-se num banquinho, com seu vestido azul de renda (o vestido é peça de minha imaginação), enquanto eu, ajoelhado, suando em febre, vomitava minhas piores verdades. Seus olhos confirmavam suas palavras. Palavras estas que repercutiram em mente como imagens onde ela colocava minha cabeça em seu colo e passava as mãos pelos meus cabelos, enquanto eu babava sangue no vestido azul.

Cada afirmação que me ouvia dizer, ou melhor, que escrevia enquanto estuprava o teclado me fazia estremecer. O que eram, afinal? Imagens de tortura, onde eu a pegava pelos cabelos, cortava suas costas e bebia seu sangue. Imagens onde eu controlava sua mente, vigiava cada passo e a proibia de se encontrar com este ou aquele indivíduo. Ela, acorrentada, debaixo de uma cachoeira de águas gélidas, com os olhos implorando libertação. Ela, queimando na fogueira. Ela, sendo empurrada por mim para um oceano, onde morreria congelada. Eu a empurrando da Torre. Estas e ainda mais: cenas horríveis, detestáveis, me vinham com freqüência à noite. Não conseguia desenhar, não conseguia pintar, pois meus braços me obrigavam a esboçar sua face sofrida. Estes pensamentos me torturavam, sádicos, enquanto eu me contorcia na cama implorando para que eles me deixassem em paz. Obsessão. Queria estar morto para a obsediá-la, como dizem os espíritas. Queria ser mil vezes pior que qualquer tirano. “Não, não”. Mas os “eus” dos pensamentos, os torturadores não me deixavam em paz. Culpava-me por pensar aquilo, por cogitar qualquer mal a quem me fazia tão bem... Eu não merecia mapeá-la. Sentia nojo de mim. Quando terminei minha fala, porém, ela me olhou com os olhos doces, ainda me mandando um beijo pela câmera, o que eu senti como se beijasse minha própria face e disse:

- Sinta o que tiver que sentir, nom te tortures por isto. Eu tenho um plano. Eu irei para aí.

Eu, como quem havia acordado de um pesadelo, sentindo o teclado ainda babado, com o rosto vermelho pelo choro, e os olhos inchados, sorri. Ela me aceitava, me compreendia. Ela, o alvo de toda a minha pior verdade, da minha maldade contida, entendia e me aceitava!

- Permita-te ser, Vincent. Nom me farás mal, pois nom é isto que tua parte boa deseja, e é esta que gosto mais.

Sim, Lia, não era! E eu, então, como um menino, beijei suas mãos, arrumei seu vestido e consegui dormir em paz naquela noite. Sem pensamentos maldosos.